20.5.10

Nathalia Tomines

“Paradise Now” retrata os palestinos Said e Khaled, amigos de infância, vivenciando as conseqüências do conflito de seu povo contra os judeus. Chega o dia em que eles são convocados a fazer o maior sacrifício: dar as próprias vidas pelo país como homens-bomba. Tomar essa decisão é algo mais difícil do que se poderia imaginar. No mundo ocidental o terrorismo é amplamente condenado, os participantes simplesmente considerados bárbaros e frios.

O filme nos oferece uma nova ótica sobre o assunto, e questiona o papel do ocidente como simples vítima de ataques sem motivo. O quanto de terror também é causado a esses povos que são acusados de disseminá-lo? O etnocentrismo, prontamente encontrado em muitas análises sobre terrorismo, proporciona apenas uma visão limitada sobre outras culturas. O filme nos dá a chance de relativizar, adiciona novas cores ao quadro, mudando o preto ou branco, bom e mau. A humanidade, e tudo o que é criado por ela, forma um cenário complexo. É grande o número de estudos dedicados à compreensão de culturas, e ainda assim não é possível conhecer os detalhes de todas elas. Diferentes espaços e tempos interferem em nosso julgamento e até na possibilidade de encontrarmos todos os traços dos costumes.

Os personagens de “Paradise Now” cumprem o papel de nos introduzir a um mundo oprimido pelo mesmo terror que é acusado de causar, e sufocado por uma cultura alheia que lhe restringe a liberdade. Said, o palestino que chega ao final da tarefa como homem-bomba, nos revela que há motivos que o levam a tomar essa atitude, sem definir conceito de certo ou errado. Essa motivação não é nenhum ódio insano pela cultura ocidental, mas sim uma decisão tomada após o personagem ponderar sobre como a ocupação de Israel interferiu na vida dele. A decisão, porém, estava baseada na visão de mundo a qual lhe era familiar, podendo ser considerada também etnocêntrica. A personagem feminina Suha entra na história como um contraponto. Tendo sido educada na França, longe do ambiente pesado de sua terra natal, e marcada com a morte do pai como mártir da causa palestina, as experiências dela pesam para que ela possua uma visão diferente daqueles que são a favor dos atentados.

O contato com novas culturas ampliou a visão dela, permitindo que pudesse analisar a situação sob outros aspectos, convencendo-a de que os ataques suicidas não seriam o caminho para a solução do conflito. Ela tenta então dissuadir Said e Khaled de suas intenções terroristas através da argumentação. Khaled, que muda de idéia com relação ao ataque, deixa nos expectadores um sentimento de que, embora não seja simples, é necessário e possível encontrar formas de resistência ou acordos que não envolvam sacrifício e assassinato massivos de palestinos e judeus.
A interferência de Suha é decisiva na escolha de Khaled, que apreende esse novo ponto de vista e tenta ainda convencer o amigo Said a não prosseguir com o ataque.

“Paradise Now” nos revela, de forma humanizada, este ponto delicado dessa sociedade que coloca o corpo e a vida de seus homens à disposição daquilo que consideram uma causa maior: a liberdade e a preeminência da própria cultura no espaço onde vivem.